Quem nunca teve medo de ficar sozinha?
Escrevi esse texto em 01.01.2025, embaixo de um pé de Aroeira, na Ilha de Itaparica — na minha Bahia.
De lá prá cá, finalzinho de novembro de 2025, já caminhei um bocado nesse mundo interior e exterior e voltei aqui para te afirmar que sigo sentindo que:
A solidão não é um castigo. É a paz que se conquista com muita guerra.
Afinal, quem nunca escutou:
“Se continuar assim, vai terminar sozinha” – exatamente no ponto onde a autoestima de uma menina ou mulher deveria ser fortalecida.
Onde a autoconfiança e a autoamor deveriam ser fortalecidos nos incentivando a não aceitar nada que nos desrespeite e validar a nossa voz, se converte na ameaça que nos faz aceitar o inaceitável por toda a vida: “o medo de ficar sozinha”.
Mas, deixa eu te lembrar que, de agora em diante, quem te conta histórias é a emocio.nanda do primeiro dia deste ano surpreendente, que segue rumo ao seu fim:

2024 foi um ano transformador na minha vida!
Não espere que eu escreva sobre “como ser triste em 2024?” porque eu poderia produzir uma trilogia com livros de mais de 500 páginas sobre este tema. Não haveria post em redes sociais que me fizesse dar conta dessa trend.
Meus sinceros parabéns a quem teve um ano tão bom!
Aqui, vamos trabalhar com a minha realidade em um ano em que enfrentei a solidão tão de frente que acabei esbarrando comigo e me encontrando em mim, mudando totalmente a minha perspectiva sobre o “medo de ficar sozinha”. Porque, minhas irmãs, isso vai acontecer, esteja você acompanhada de mais gente ou só de si. Mas será que deve mesmo ser ameaçador?
Quero muito que você me conte, ao final do texto, como você encara o “medo de ficar sozinha” agora.
Ficar sozinha foi a viagem mais transformadora que já fiz.
Uma imersão em mim!
Então, eu não poderia passar a virada de outra forma.
Tranquila, comigo, muito consciente e conectada com a minha espiritualidade, me vi querendo escapar de mim e me juntar aos meus amigos que estavam na mesma ilha que eu, em uma festa que eu amaria com capoeira e samba de roda até o amanhecer.
Então, me observei querendo escapar de novo de um encontro comigo que certamente revelaria ainda mais sobre mim!
Dessa vez, já não tinha desespero. Era como eu me testasse para ver se eu mesma caia na sedução da fuga daquilo que eu sabia há muito tempo como deveria ser.
Sentei e observei meu desconforto enquanto o tempo passava e eu não me levava a lugar algum!

Recordei todos os outros anos que tive paciência para lembrar, de todos os lugares onde compartilhei a minha energia nestas datas e de como, em nenhuma delas, eu me sentia tão plena e feliz.
Não uma felicidade eufórica. Não!
Era uma felicidade leve como o vento que tocava meu rosto naquela noite enquanto eu, comigo, fazia meus rezos e agradecia por tanto!
Parece bonito quando você lê, mas a verdade é que tem muita guerra, muitas batalhas, nas entrelinhas das minhas palavras.
Os ciclos da vida e o cansaço da “mulher guerreira” que ninguém vê

Todas as guerras têm muitas baixas, muitas mortes e nenhum nascimento transcendedor.
Você pode assistir filmes de guerra e só vai ver morte, sofrimentos e acontecimentos catastróficos de todos os lados.
A guerra da qual estou falando, não é a da mulher guerreira, instagramavalmente validada pelo patriarcado, que dá conta de tudo, não menstrua, é forte porque está sempre priorizando o outro enquanto, em silêncio, se esforça para sentir uma gratidão desumana ao ignorar as manifestações da própria alma.
Logo começam a lhe aparecer nos distúrbios do sono, das emoções e logo vão ocupando o corpo que grita todo o silêncio expressado milimetricamente no lugar sombrio, apertado e castrador que foi reservado para tentar encaixar o “ser mulher” que, originalmente, é tão expansivo.
“Ser mulher” – tao singular e tao plural. Mas, para a sociedade, isso se resume em se podar em todos os níveis para se encaixar.
É como quem entra mesmo em uma caixa. Quem tenta se adaptar a algo com um formato totalmente diferente do seu. Só para “caber” em lugares, rótulos e módulos que não são nada uteis a si.
Aqui falo da guerra que a gente trava contra o mundo opressor que criaram dentro de nós, tão metodicamente, que estamos treinadas para lutar contra nós mesmas, até a morte, para defendê-lo.
Por que repetimos ciclos?
Essa é a minha única grande questão nesse momento. Porque, como dizem, “ninguém chuta cachorro morto”. Entao, qual é a lógica dessa sociedade de nos manter neste lugar?
Fico pensando como seria esse mundo se a gente não tivesse sido ensinada que a solidão é um castigo, por quem sequer encarou a solidão, mas espalha essa fakenews há tanto tempo que não temos tantas referências, fora das mitologias, de mulheres que não tem temessem encarar os perigos da própria liberdade.
Ensinadas a servir, a ser multitarefas, obedientes, doces e insustentavelmente estéticas, não sobra tempo para a gente produzir com a força do feminino, a ciência, a arte, a tecnologia e tudo o que move o mundo.
Somos ensinadas a usar nosso tempo, nossos dias e a nossa energia vital em apenas para buscar um par romântico, que vai nos retribuir com uma “família perfeita” para a gente cuidar.
Também nos ensinam que, para isso, precisamos ter como objetivo uma forma estética padronizada e inalcançável para nós, mortais, e, além de tudo isso, fingir que não nos sentimos exaustas pela culpa por não atingir o indiscutivelmente inatingível!
Se não gerasse um grande pavor falhar e desistir até ser considerada um fracasso pelo opressor, poderíamos questionar os ideais que nos talharam na alma ao invés de nos culpar e duvidar de nós mesma até a exaustão.
O “medo de ficar sozinha”, de ser rejeitada ou rechaçada é a maior forma de controle sobre nós.
Se não apavorasse tanto a ideia de “desistir da guerra”, se decidirmos apenas aceitar as mortes, a derrota, o mais profundo fracasso de um projeto que nunca foi seu e que te fez sofrer até encarar a morte antecipadamente, e assim entender que alguns campos de batalha devem ser desocupados, os mortos recolhidos, velados e sepultados enquanto a vida acontece naturalmente do lado de fora.
Enquanto isso, em seu silêncio contemplativo, você seguir assistindo, sem julgamentos, isso tudo acontecendo dentro de você, enquanto segue organizando a rotina do lado de fora, com todos esses lutos de si mesma e de suas funções, para poder reorganizar a sua vida com base no que você vai abandonar, de qual “guerra vai desistir”, que papéis vai deixar de interpretar e de que você vai abrir mão para poder ocupar o simples e revolucionário direito de ser você mesma!
E, minhas senhoras, lhes digo: quando você consegue cumprir todas essas tarefas e se pega em um tempinho livre com você, sentada embaixo de uma árvore na noite de réveillon em uma praia remota em uma Ilha de Salvador da Bahia ou no sofá de casa num sábado a noite qualquer tomando um vinho, percebe que a solidão não é um castigo.
Você entende o quão poderosa somos para terem criado tantas ilusões sobre nós mesmas, nos fazendo repetir padrões que nos afastam da simples essência de ser quem somos. Padrões que criticamos há tanto tempo, mas que seguimos atuando inconscientemente até enxergar que se desloca por outras áreas da vida, nos mantendo no lugar planejado pra nós.
Nos desencaixamos, rompemos as caixas que nos prendiam, questionamos valores, rompemos com ritos e mitos e nos deram caixas novas, mais coloridas, de plásticos mais rígidos, mas com uma estética mais moderna.
O sistema parece atuar como uma Startup criada por dois jovens adultos paulistanos que oferece mesa de bilhar, chopp e muitos direitos trabalhistas e humanos violados ao longo do expediente de trabalho, enquanto parece ser um ambiente totalmente diferente das firmas que nossos pais trabalharam (mas só na estética e no discurso).
A realidade parece um período distópico de alta produção cinematográfica em que todos sofrem.
@emocio.nanda
Se tiver que questionar alguém, questione aquilo que te faz duvidar de si.
Embaixo da árvore, lá na Ilha de Itaparica, na virada do ano, em minha companhia, percebi que tudo o que me falaram sobre a solidão era mentira!
Aquilo que me venderam como punição, até eu aceitar, era, na verdade, um encontro lindo e gentil comigo e “o medo de ficar sozinha” virou algo tao insignificante quando vi a realidade de estar comigo que você não pode imaginar.
Acredito que há uma distorção de interpretação porque, a frase “se continuar assim vai acabar sozinha” deveria soar como uma promessa de autoamor em que, depois de encarar a solidão, a gente realmente acaba se tornando muito mais seletiva porque já não atua mais no “medo de ficar sozinha” e sim na beleza da nossa própria companhia.
Já não aceita mais relações abusivas em “troca de companhia” ou de “manter a imagem” de vida que nos ensinam que devemos construir.
E você, me conte aqui nos comentários se já passou alguma data importante sozinha ou se tem vontade de fazer isso.
Se você gostou dessa crônica, compartilhe com suas amigas ou com quem sentir que pode precisar ler um pouco. Assim manda um aconchego para as suas amigas que precisam perder “o medo de ficar sozinha”.
Publicado originalmente em: https://emocionanda.com.br/a-solidao-nao-e-um-castigo-e-a-paz-que-se-conquista-com-muita-guerra/






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